Limite

Entrei no carro.

Silêncio.

Suspiro.

– Você acha isso certo, meu filho?

De todas as coisas que ela podia me perguntar, nada era menos certo do que minha moral. Não respondi. Primeiro, ela fala da educação:

– Eu fico imaginando onde foi que eu errei, sabe, na educação não foi.

Agora ela emenda falado da minha irmã:

– Sua irmã teve as mesmas coisas que você e está aí, cursando faculdade.

E no final, ela se lamenta:

– Não sei mais o que fazer.

Suspiro.

Penso: É, mãe, nem eu sei o que fazer. Parece que você passou a vida toda ensaiando esse discurso na frente de um espelho, se imaginando no carro aqui e agora falando esse tanto de merda. Nem precisava ter ensaiado, se você quisesse, eu podia sempre fazer o meu papel e você o seu. Tantas vezes quanto necessário. Eu não me importo mais de fazer meu papel, afinal, sem a noção de certo e errado você não saberia nem se anda pra frente ou pra trás.

Tudo que importava é que ela ainda estava no meu bolso, e a noite ainda não tinha acabado. Eu achava que estávamos indo pra casa, pra me trancarem no quarto por três dias achando que isso iria resolver. Ou me levariam pra igreja pra tirarem os demônios de mim. Mas não dessa vez. Minha mãe seguia o caminho da clínica de reabilitação. No primeiro semáforo, saltei do carro antes que ela pudesse me agarrar. Não precisei correr, só fui andando pra longe do carro enquanto ela me acompanhava com um olhar de desolação misturado com raiva. Caminhei lentamente, esperando que ela viesse atrás de mim. Não esperava que ela me perdoasse, ou que falasse que vamos pra casa. Apenas que me deixasse ir. Ela encostou o carro, e desligou o motor.

– Filho.

Ignorei.

-Filho!

– Eu sei pra onde você quer me levar, você não vai conseguir.

– Mas é pro seu bem, lá eles vão cuidar de você e…

Ela explode em lágrimas. Soluçando, não consegue terminar a frase. Apesar da mistura de sentimentos que a nossa relação causava, ela ainda era minha mãe. Abracei-a, e comecei a chorar também. Por algum motivo, isso pareceu acalmar ela. Sei lá, acho que fazer isso mostrou que eu ainda me importo, nem que seja um pouco.

– Querido, você tem que parar com isso…

– É, eu sei, mãe.

– Você já me disse isso antes… Me promete que vai conseguir!

– Eu… Eu prometo.

– Vamos pra casa.

Entrei no carro com um sentimento de culpa. Eu ainda um tanto comigo, ela não podia saber disso. Mas dessa vez eu ia parar. Eu tinha que parar. O caminho pra casa seguiu-se no silêncio de um funeral. Não havia muito o que falar, apenas a cumplicidade no compromisso firmado. Quando cheguei em casa, disse que estava muito cansado, e que ia para o meu quarto. Lá eu deitei, e comecei a sentir o efeito da droga passar. Eu tremia e suava, dizendo pra mim mesmo que eu conseguia fazer isso. Eu poderia conseguir enganar minha mãe, mas não estava conseguindo enganar a mim mesmo.

Minhas mãos tatearam sobre o meu bolso, ela estava lá. Meu cérebro dizia para eu resistir, enquanto minhas mãos pareciam trabalhar sozinhas. Em um pouco de cuspe, esquentei com um isqueiro a heroína que estava no meu bolso, junto com a parte côncava e quebrada de uma colher. Posicionei a seringa me prometendo que essa seria a última vez. Suguei o líquido viscoso para dentro da seringa, e apliquei sem conseguir mirar muito bem, minhas mãos tremiam demais. Injetei.

Paraíso.

Deitei em minha cama, com um sono que só a heroína pode proporcionar, e dormi.

Minha mãe estava na cozinha, preparando um sanduíche. O cheiro empesteava o ar, e o ruído de queijo derretido na grelha preenchia o ambiente. Ela não era muito de fazer as coisas por mim, afinal, quem é que quer fazer coisas por um viciado? Mas creio que estávamos tentando um agradar ao outro. Ela cumpriu a parte dela do contrato; eu não. Derramou num copo de cristal o suco de maracujá, e colocou tudo em uma bandeja. Veio até o meu quarto. O choque de me encontrar mais uma vez dessa maneira, foi o suficiente para que ela quase deixasse a bandeja cair, mas se recompôs. Andou calmamente até a escrivaninha, e pousou a bandeja.

– Eu podia deixar o seu sanduíche aí, sabe. – Ela disse como se eu pudesse ouvir.

– Fingir que não vi o que aconteceu, e jogar essa porcaria fora como eu sempre fiz. Você vai acordar eufórico, olhar pra minha cara como se eu não soubesse o que está acontecendo, e ficar calado. Ah, o cinismo dos viciados.

Sentou-se na beirada da minha cama. Eu nem pude notar. Paraíso. O paraíso.

– Acontece que essa vida não é pra mim, não foi pra isso que eu te criei.

Enquanto ela dizia isso, examinava a agulha e a colher que eu usara alguns minutos antes. Pegou o papelote que continha a heroína, e abriu-o. Despejou todo o conteúdo na colher, e cuspiu em cima. Aqueceu aquilo com o isqueiro, e encheu a seringa em sua capacidade máxima.

– Sabe, eu podia participar do seu mundo. Mãe e filho, dividindo a mesma seringa, soa bonito, familiar.

Ela posicionou a seringa na dobra de seu próprio braço, enquanto falava com um ar apaixonado.

– Acho que finalmente teríamos algo em comum, não?

A agulha dançava apoiada em seu braço.

– Mas essa não foi a vida que eu escolhi pra mim, ao contrário de você. Sabe, eu posso continuar miserável com seu sofrimento, enquanto isso tudo me impede de viver. Mas não foi isso que eu escolhi pra mim.

Sua mão se fechou em torno da seringa, e lentamente ela aplicou todo o seu conteúdo em meu pescoço. Direto na minha jugular. Removeu a seringa, e largou-a em cima da cama. Sem nem mesmo se levantar, alcançou a bandeja e a pôs em seu colo. Saboreou o sanduíche já frio. Depois de comer calmamente, limpou os lábios com o guardanapo, e pousou a bandeja em cima da cama.

Levantou-se e saiu do quarto para ligar para a emergência, informando que seu filho havia sofrido uma overdose de heroína.

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And so, I was wrong.

“ Miracles, by their definition, are meaningless. Only what can happen, does happen.”

Sabemos ter deixado de testemunhar a criação e a destruição de tudo aquilo que já foi, e sequer estaremos aqui para vermos aquilo que será. Pilhas e mais pilhas de livros de história retratam com pinceladas insuficientes as chances e acasos do passado.

A (im)possibilidade de uma massa superconcentrada de matéria dar origem a um planeta azul.

A (in)sensibilidade do sopro da vida, ou do surgimento esboçado em Urey-Miller.

A ordem se esvai nos rios de caos onde se banham as verdades que não se pode relativizar pois não são dotadas de perspectiva, dirá percebidas.

Nesse mar caótico de impossibilidades, improbabilidades geradas não só pelas adversidades da vida, mas também pelas exigências biológicas, foi você, e só você, que emergiu.

Todas as razões de certo e errado, verdade ou mentira foram contrariadas. A descrença na razão encoraja a confiança no sentimento, apesar da primeira parecer sempre apontar as respostas, enquanto o segundo não passa de um bajulador desleal. Mas se os sentimentos são bajuladores, a razão não passa de uma ilusionista.

Amamentando seu próprio ego, você força o foco da lente a se ajustar para projetar a imagem daquilo que você quer enxergar.

Tudo aquilo que você vê, se limita a direção que você escolhe olhar.

Mas na verdade, quem ajusta o foco é ela.

E é aí, que se encontra a intensidade de amar.

“it’s like turning air into gold”

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epilogue

– I had a dream last night..

-Tell me about it

– Was terrible, It’s everything so foggy in my mind! But I can clearly remember the felling, oh, that felling…

– What felling? C’mon, u’re speaking non-sense. Get straight to the point

– There’s no point, and there’s no sense either. It’s a dream, they are not as real as they seem when you are still dreaming… that chest pain, felt like death.

– How can the lack of meaning can be so meaningful?

– what?

– Your dream, obviously meant something

– … you think that I’m going to die?

– Don’t be ridiculous, dreams never mean what they seem to mean

– What would it mean then?

– Who knows? I experienced death once in a dream…

– How was it?

– I enjoyed it, actually

– what? What the hell are you talking about, you liked to die?

– Sort of

– THIS is non-sense, seriously, you’re freaking me out.

– C’mon.. it was nothing….

– Tell me more, how does it happened? And why you enjoyed it?

– Oh, it was a suicidal dream

– WHAT?

– Yeah, I dreamed about putting a bullet in my head

– Why, in the nine circles of hell, would you enjoy doing that kind of thing?

– Guess it’s because you learn a lot about youself

– What do you mean?

– It’s a huge moment, it’s very quickly and still, it lasts forever. The moment until you have the courage to pull the trigger, it’s the most exciting moment of your life. You can fell the gun pressed against your forehead, and you can’t never really decide if you wanna do it or not. It’s a shot in the dark, and it’s a no turning back decision to make

– Seriously dude, cut it off.

– But believe me, when you pull the trigger, you fell… free, somehow. Everything that was, isn’t anymore. The world around you becomes ethereal, and nothing really matters anymore. Like in a dream.

– Dude, you really should see doctor, you have dark thoughts… maybe someone can save you.

– Why would my life worth saving? Does yours?

– Of course it does! Every life is worth saving! A life is a life…

– C’mon, don’t come with this kind of speech

– What kind of speech?

– Those yelled by people against abortion, that pro-life thing. It’s the kind of talk made by those people who thinks that men has accomplished much

– Dear Lord! What do you mean? can’t you see the pyramids? The man landing on the moon, medicine and all that stuff?

– yeah yeah yeah, And what’s the point off all this crap?

– Evolution, development, it’s the science making life better!

– You gotta be kidding me

– what?

– You seriously believe in all that crap?

– I don’t ‘believe’, it’s the truth!

– C’mon, you’re smart enough to figure it out yourself

– Figure out what?

– … what all those ‘great’ things you mentioned mean

– …

– prosperity?

– It’s show off

– what?

– Show off

– What do you mean?

– C’mon fell the reality around you. All those huge stuff built by man has one single purpose: exhibit power. How many people must die every day for absurd reasons to show the mankind lack of virtue?

– reality? I believe you are the one who needs to improve your perception of reality… you have a disturbed mind.

– maybe, but you’re the one about to have what they call a “reality shock”

– what?

– …

– …

– we are already dead, and we have always been

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Tudo acaba em pizza

Seu primeiro emprego: entregador de pizza. Estava com dezesseis anos, dirigindo uma Honda CG Fan 125 cortando pelas ruelas do morro da tijuca do Rio de Janeiro levando as pizzas que custavam R$ 9,99. A polícia municipal tinha mais com o que se preocupar do que parar moleques de dezesseis anos que dirigem motos roubadas fazendo bicos para tentar ajudar os pais em casa. Por uma nota de dez reais, vários dos moradores da favela do Borel garantiam o jantar de sua família pedindo uma pizza grande.

Aconteceu numa terça-feira, um dia calmo que quase não haviam entregas a serem feitas. “Deve ser alguma festa”, pensara. Não era muito comum pedirem quinze pizzas endereçadas à mesma casa. Recebeu o pacote em seu limite, e rapidamente o colocou as suas costas na motocicleta. Dava para sentir o calor, e o odor de calabresa empesteava o ar. Deu a partida, e acelerou.

Aqueles caminhos estavam impressos em sua mente da maneira que somente uma pessoa que passara a infância inteira ali conheceria.  Cada rua e esquina, beco e buraco eram conhecidos, tornando-o um excelente empregado de primeira viagem. Aquele que abaixa a cabeça para tudo, honesto, e que faz o trabalho rápido. Para fazer valer suas qualificações, virou em um beco escuro que o faria economizar pelo menos uns dez minutos. Cortou o beco velozmente, espantando as moscas que voavam em círculos sobre a carcaça de um cachorro morto. O endereço a ser entregue era logo saindo dali.

Em dezessete minutos entregou a pizza, que era prometida para um prazo máximo de quarenta. Cento e sessenta reais. Uma mistura na dosagem certa de generosidade com cerveja barata lhe renderam uma gorjeta no valor de uma pizza. Voltava refazendo o caminho automaticamente, seu corpo parecia saber guiar a moto sem o controle do cérebro. Dirigia de volta a pizzaria pensando que, pelo menos hoje, poderia ser ele a pagar uma pizza para jantar junto com seu colega de trabalho, um senhor de 57 anos cuja as únicas faculdades eram jogar dominó, um fígado capaz de aguentar doses surpreendentes de cachaça e dirigir uma moto. Na saída do beco do cachorro morto, o farol da moto revelou quatro crianças agachadas, que levantaram rapidamente ao ouvir a buzina, erguendo uma corrente. Sem conseguir frear a tempo, a corrente atingiu-lhe no pescoço, derrubando-o no chão.  Sentiu uma das crianças revirar os seus bolsos enquanto as outras estavam ocupadas chutando suas costelas.

A única coisa que conseguiu perceber, é que os meninos que o agrediram eram os conhecidos como os aviõezinhos do tráfico. Por sorte, estava de capacete, mas ainda assim seu corpo inteiro latejava de dor. Não adiantava voltar à pizzaria, não sem o dinheiro da entrega. Era sua terceira semana de trabalho, e seu chefe duvidada até da palavra dos empregados mais antigos. Subitamente percebeu o que tinha que fazer, e seu corpo estremeceu todo só com a ideia. Tinha que subir o morro. Tinha que ir até a boca de fumo. Tinha que falar com Gonzalo.  Muitos dos moradores do Borel diziam que ele era justo, e que ajudava as pessoas, mas era sempre melhor tomar cuidado. A maioria dos Cubanos, a primeira vista, falam bem do Fidel Castro.

Subiu o morro repassando o diálogo em sua cabeça, tinha que ser firme. Não podia hesitar ao falar, não poderia aparentar medo. Ninguém pode roubar os moradores locais, era a Lei, sabia disso, e ainda assim ficava tentando se convencer de que estava fazendo a coisa certa. As ruelas subiam em ziguezague conduzindo o trecho de paralelepípedos mal assentados. As ruas eram formadas pelos espaços que sobravam entre os barracos. Se você tivesse sorte dava pra ouvir pessoas fazendo sexo, bastava encostar o ouvido nas paredes que formavam os becos. Na favela isso é o filme pornô da vida real, assistido pelos garotos de onze anos  que mancham as paredes das casas e saem correndo pra soltar pipa.

Desde que a Unidade de Polícia Pacificadora começou a atuar, o movimento no morro tinha diminuído bastante, e a única coisa que dava para ouvir de frente para a boca de fumo, eram os latidos longínquos dos cachorros vira-lata. Sentado a porta da boca de fumo, dormia um tipo. Se aproximou para falar com ele com calma, imaginando se teria problemas por acordá-lo. Ao chegar perto percebeu que quem guardava a porta era um mulato atarracado que era pelo menos dois palmos mais baixo que ele, e tinha o cabelo descolorido com água oxigenada.

– O que te traz aqui, rapaz? – rosnou uma voz grossa, por entre os dentes.

Surpreendido pelo mulato que achava que dormia, perdeu a concentração e estremeceu, não respondendo da maneira que queria:

– V-vim para falar com o Gonzalo.

– Ah sim, claro – Riu-se o mulato – Marcou horário com a secretária dele foi?

– Não, quer dizer, não importa, preciso falar com ele. É urgente.

– Que é? Você ‘tá vendendo uma droga que te faz perder a noção e o amor da vida?

– P-por favor, é que meu emprego depende disso e hoje a noite eu estava fazendo entregas e…

Calou-se de repente quando a porta atrás do mulato se abriu. Um negro alto, com dreads na altura do ombro grossos como a manopla de sua motocicleta cortou o umbral da porta urrando:

– Que porra é essa aqui? Um chá de comadres? Vocês vieram aqui para bater um papo? Quem é esse moleque?

– Eu sei lá, ele é maluco, diz que tem que falar contigo e que é urgente.

– Por acaso a putinha da sua irmã tá louca pra dar pra mim? Inventou um jeito novo de arrombar cu de moleque abusado?

– N-não senhor, é sobre meu emprego, seus meninos me roubaram e eu não tenho mais como voltar a trabalhar.

– Como é que é? Tá me chamando de ladrão, filha-duma-puta?

– Não, n-não  é isso – tentou se explicar – Eu sou entregador da Pizzaria do Borel. Nesse momento, por algum motivo o taficante resolveu deixar ele falar, e explicou a sua história contando que, se não levasse o dinheiro das pizzas, seria mandado embora.

Quando terminou a história, Gonzalo coçava o canto direito do nariz com o cano de uma Taurus calibre 38 de cabo cromado, parecia ter se acalmado.

– …então você quer o seu dinheiro de volta, porque você precisa continuar entregando pizzas, é isso?

– Bem, é.

– Acho que houve um mal entendido aqui, garoto.

– Como?

– Você ‘tá me confundindo com alguém que dá a mínima pra essa sua vida de merda.

– Mas, mas… dizem que o senhor é sempre justo!

Nesse momento, Gonzalo apontou a arma para o pé esquerdo do garoto e descarregou as seis balas que cabiam no tambor. O pé dele se tornara uma mistura disforme de sangue, pedaços de ossos e terra. Os tiros foram ouvidos por vários moradores da favela, como uma cantiga de ninar que assombrava as suas noites.

Antes de entrar de volta no barraco, disse:

– Ouviu certo garoto, justiça acima de tudo. Já que você perdeu o seu empreguinho de merda, não vai mais precisar desse pé para dirigir uma moto. Bem vindo à realidade.

 

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A Estética da tatuagem

Vamos começar com um pequeno exercício de lógica.

Se você perder uma perna em, digamos, um acidente de carro, você substitui ela por uma prótese, claro, ainda quer andar por aí fazendo coisas aleatórias que todo mundo faz. Você pode pensar pelo lado estético, e achar que fica feio, mas pelo menos é útil. Pelo lado bom, mosquitos não vão mais te incomodar, pelo menos não nessa perna. Em nenhum momento você vai achar que deixou de ser uma pessoa. Não por perder uma perna.

Agora repita o exercício exaustivamente, removendo um membro adicional a cada vez. Até se tornar o Darth Vader.

Você ainda é humano?

Tendo substituído todo o seu corpo por uma máquina, a única coisa orgânica que te resta é seu cérebro. Mas você ainda é humano, ou não?

Se não, não há problema em alguém atirar na sua cabeça, e terminar a sua meia-existência como máquina. Seria como atirar em um liquidificador. Não seria um crime muito grave, diga lá.

Se sim, você acaba de perceber que seu corpo não é um templo.  De certa forma, um objeto desenhado para de auxiliar no dia-a-dia. Como um carro, quem sabe.

Fato é que você provavelmente não entendem seu próprio corpo desse jeito, mesmo que seja, de certa forma, óbvio. O corpo é algo a ser preservado, sagrado. Intocável, perfeito, idolatrado, vulnerável. Mentira.

Já passou do tempo em que o corpo era entendido como objeto de desejo, para se tornar objeto de design. Perfura-se o corpo dezenas de vezes por segundo injetando-lhe tinta, e modificando-o. Faz da agulha o pincel, e nasce uma obra de arte.

E os moralistas moderninhos vem dizer que para se violar dessa forma, se mutilar, é preciso um significado. A carpa, a superação. A fênix, o renascimento e a borboleta, a transformação. O retrato de um filho morto, o nome de alguém amado. Em todos os casos, motivos fúteis acobertam a vontade de transcender o corpo. Em todos os casos, a futilidade assassina a arte. Porque arte, não tem significado. O artista é, tão somente, o criador de coisas belas. “Os que só vêem intenções vis nas coisas belas são depravados destituídos de encanto. É um defeito”.

Esses que precisam de “significado” para sentir dor, rasgar a pele e marcá-la para sempre, são os verdadeiros assassinos da arte, cultuando a estética plástica pré-construída.

“Toda arte é absolutamente inútil”. Wilde, Oscar.

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isso ou aquilo

Um dia como qualquer outro, trabalho, faculdade, uma dose de café e um cigarro. Inevitavelmente, a maioria de nossos dias passam em conjunto. Você não se lembra de dias em separado, mas aos pares, nada diferente acontece. Mesmo que tenham algumas mudanças no roteiro de última hora, nada que comprometa o final irritante. Nada que faça você conseguir diferenciar a ontem de hoje.

Aquele dia corria assim, nem mais, nem menos. Algumas conversas automáticas, com respostas e discursos prontos, sempre tentando lidar com o tempo, e falhando diante dele. Engraçado como o tempo se comporta e a maioria das pessoas luta contra o relógio, já eu, aprendi que brincar com ele torna tudo mais divertido, e menos monótono.  E diariamente eu brinco de fiel e imploro que o tempo dê alguns saltinhos sem que ninguém perceba. Em geral, querem que o tempo passe mais devagar, para se aproveitar cada segundo do dia. No meu pique-e-pega com o tempo, torço sempre para ele me pegar.

As vezes ele me ajuda, sabe, nos corredores. Aquela caminhada de dez minutos até onde-quer-que-seja geralmente colocam todos os seus pensamentos dentro de um giroscópio e quase te fazem pirar. Mas algumas vezes, quando o relojoeiro tá de bom humor, ele adianta os ponteiros, e você nem percebe. Me faz sorrir.

Engraçado o que um olhar pode fazer com você. Rodeado de coisas tão interessantes quanto o próprio tédio, você observa. Observa a arquitetura moderna de poucos. As cores são sempre pálidas, onde quer que você olhe. A textura imita sempre tudo aquilo que parece ser certo. Sem cor, sem vontade, a vontade de todo mundo. A parede branca que incomoda se tem uma mancha, uma pichação. Em meio a esse espiral de perfeição, são as rachaduras que me interessam, os erros, as falhas. Ainda assim, não é o suficiente para perfurar a parede de pensamentos que me separa do mundo exterior. Engraçado o que um olhar pode fazer com você.

O tempo passa, e você vai ficando cada vez mais longe, submergindo. Quando em meio a todo esse preto-e-branco, surge um olhar. Podia ser o de qualquer um, mas não é. Um simples olhar, capaz de te puxar para a superfície tão rápido a ponto de perder o fôlego. As engrenagens emperram, e você pára. Simplesmente pára, as peças quebraram e estão todas espalhadas por aí. Você acorda meio tentando se lembrar como era se mover sem as partes mecânicas, sacode as teias-de-aranha, e se levanta preso por aquele olhar. Caminha, e tem a primeira conversa sincera até onde pode se lembrar.

Incrível o que um olhar pode fazer. Aqueles olhos contornados por um par de óculos vermelho-vinho, que não consigo esquecer.

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Presente

Você precisa de dinheiro. Você quer comer, então precisa de dinheiro. Você quer trepar, precisa de dinhero. Quer rezar, precisa de dinheiro. Quer morar, casar, viajar,  ter filhos, drogas, sonhos. Sonhos.

Você precisa de sonhos. Precisa de aprovação. Perspectivas, planos, idéias, ideais, emprego, carreira, dinheiro. Você precisa de tudo isso, afinal, te exigem tudo isso. Você precisa salvar o planeta, não jogue lixo no chão. Você precisa salvar o mundo, doe dinheiro aos pobres. Você precisa salvar as crianças, adote um menor abandonado. Você precisa salvar os animais, pare de comer carne. Você precisa salvar a todos, doe sangue. Você precisa se confessar, pague o dízimo ao padre.

Os pecados que você cometeu antes mesmo de nascer.

Compre chocolate. Quimicamente, um orgasmo é igual a comer grandes quantidades de chocolate. Orgasmos são vendidos em lojas de conveniências. Orgasmos são vendidos em qualquer esquina, você pode até escolher o tamanho, cor, formato e embalagem. Só precisa de dinheiro. Todos os seus sonhos, compre cada um deles. Se um dia eles se esgotarem, compre novos sonhos. Você precisa de sonhos, para dizer que tudo tem uma razão. Que há algo lá fora, que foi feito para ser. Algo que espera o melhor de você, que está assistindo. Fazendo você dançar, ainda que você não queria. Fazendo você respirar, ainda que você não queira. Você acredita, e diz ser muito fácil negar. Ainda assim, é você que precisa de muletas.

Você tem duas pernas perfeitas, e precisa de muletas.

O que você não precisa, é precisar de sonhos.

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