Um dia como qualquer outro, trabalho, faculdade, uma dose de café e um cigarro. Inevitavelmente, a maioria de nossos dias passam em conjunto. Você não se lembra de dias em separado, mas aos pares, nada diferente acontece. Mesmo que tenham algumas mudanças no roteiro de última hora, nada que comprometa o final irritante. Nada que faça você conseguir diferenciar a ontem de hoje.
Aquele dia corria assim, nem mais, nem menos. Algumas conversas automáticas, com respostas e discursos prontos, sempre tentando lidar com o tempo, e falhando diante dele. Engraçado como o tempo se comporta e a maioria das pessoas luta contra o relógio, já eu, aprendi que brincar com ele torna tudo mais divertido, e menos monótono. E diariamente eu brinco de fiel e imploro que o tempo dê alguns saltinhos sem que ninguém perceba. Em geral, querem que o tempo passe mais devagar, para se aproveitar cada segundo do dia. No meu pique-e-pega com o tempo, torço sempre para ele me pegar.
As vezes ele me ajuda, sabe, nos corredores. Aquela caminhada de dez minutos até onde-quer-que-seja geralmente colocam todos os seus pensamentos dentro de um giroscópio e quase te fazem pirar. Mas algumas vezes, quando o relojoeiro tá de bom humor, ele adianta os ponteiros, e você nem percebe. Me faz sorrir.
Engraçado o que um olhar pode fazer com você. Rodeado de coisas tão interessantes quanto o próprio tédio, você observa. Observa a arquitetura moderna de poucos. As cores são sempre pálidas, onde quer que você olhe. A textura imita sempre tudo aquilo que parece ser certo. Sem cor, sem vontade, a vontade de todo mundo. A parede branca que incomoda se tem uma mancha, uma pichação. Em meio a esse espiral de perfeição, são as rachaduras que me interessam, os erros, as falhas. Ainda assim, não é o suficiente para perfurar a parede de pensamentos que me separa do mundo exterior. Engraçado o que um olhar pode fazer com você.
O tempo passa, e você vai ficando cada vez mais longe, submergindo. Quando em meio a todo esse preto-e-branco, surge um olhar. Podia ser o de qualquer um, mas não é. Um simples olhar, capaz de te puxar para a superfície tão rápido a ponto de perder o fôlego. As engrenagens emperram, e você pára. Simplesmente pára, as peças quebraram e estão todas espalhadas por aí. Você acorda meio tentando se lembrar como era se mover sem as partes mecânicas, sacode as teias-de-aranha, e se levanta preso por aquele olhar. Caminha, e tem a primeira conversa sincera até onde pode se lembrar.
Incrível o que um olhar pode fazer. Aqueles olhos contornados por um par de óculos vermelho-vinho, que não consigo esquecer.
É horrível sentir-se assim, de vez em quando. Eu também tenho esses ‘problemas’ com o relojoeiro. Acontece…é a vida, eu acho.
Um bom texto!