Vórtices velozes

Meu corpo age fisiologicamente como se nada estivesse acontecendo, reação precedendo a ação. Carne e espírito desvinculados, vivendo o mesmo momento. Estou desidratado, cansado e com insônia. Meus pensamentos impedem o sono, e contrariam minha vontade de dormir. Minha mente está doente, com uma dor de cabeça que não se manifesta no corpo, só na idéia. A dor é uma lembrança constante de estar vivo, me dá preguiça. Um turbilhão de idéias fica indo e vindo rápido demais para que eu consiga entendê-los, devagar o suficiente pra me incomodar.

Vejo-me numa avenida larga, me lembra a Paulista. Meus pensamentos são as pessoas que passam na rua, são vultos, velozes. Meus sentimentos estão escondidos em algum lugar, em alguma esquina, sabendo que não podem sair, não agora, não hoje, apesar de não me importar de ser aqui. A multidão passando traz cada vez mais a sensação de estar sozinho, e afasta a compreensão de mim. Vejo as pessoas e me individualizo, penso e sinto. Evoco um tempo passado onde meu eu era muito menos eu, um tempo letárgico, lisérgico. Sinto saudade e me enojo por isso.

As lembranças do passado a que me refiro não são distantes, são latentes, constantes, pulsantes. Isso me irrita, essa vivência da efemeridade e das transformações acontecendo muito rápido que eu não consigo acompanhar. Tenho a razão e a vontade de xingar todas as Alices por tudo e por todos, mesmo que ela não vá entender, nem você vai entender, a menos que me conheça. Não o faço por saber que seria em vão, não seria notado. Nem sei se deveria ser, e nem sei se quero que seja, na verdade. Daí chega um momento que isso não cabe mais em mim, e eu tenho que protestar, mas não tenho ninguém pra me escutar. Escrevo logo algo que não deveria ser lido, sei disso e publico isso. Não tenho que me explicar. Não pra você.

Mas continuo tentando.

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8 Responses to Vórtices velozes

  1. Pingback: Tweets that mention Vórtices velozes dos ventos | Literatura Monocromática -- Topsy.com

  2. thamyra says:

    Até a agora foi o que vc escreveu que mais expressa vc mesmo….

  3. Pingback: Escravo terceirizado #4 | baconfrito

  4. yama says:

    Saudade de conversar contigo brother. Visita bh nas férias pra variar. O rio não muda. xD

    Abraços.

  5. Rosiana says:

    Eu também continuo tentando…

  6. méuri says:

    gostei do texto em primeira pessoa total, ficou muito bom.
    e refletiu tanto o que eu estou sentindo agora mesmo, que foi até um conforto. vou ali chorar mais um pouco e já volto.

  7. Marina Lara says:

    Adorei o texto.
    Mas defendo as Alices.

    • Rosiana says:

      Isso me diz muito, tanto que lí já umas 10 vezes e toda vez me parece novo e inesperado retrato de alguém muito próximo, talvez eu mesma…

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